Há estudos comprobatórios de que o crescimento do número de alunos que estudam em educação à Distância no Brasil, principalmente nas graduações, é muito maior do que o crescimento da procura pelo ensino presencial, e , segundo estes mesmos estudos, a evasão é muito menor no sistema EAD do que no presencial, embora esta seja uma constante preocupação das Instituições de EAD.
No contexto atual, a concepção de educação, passa por mudanças rápidas. Não é mais possível pensar em um professor que ensina a alguém que aprende, pois estamos todos em processo de construção, aprendendo. O foco desloca-se atualmente para a aprendizagem, centra-se no “aprender a aprender”. Ora, mesmo sabendo que a educação a distância nos remete ao estudo autônomo, onde o aluno é independente e deve gerir seu tempo e esforço de estudo, ainda assim, é preciso lançar um olhar cuidadoso às relações que se estabelecem entre professor e aluno, tutor e aluno, aluno e aluno, pois são as relações que humanizam o aprender.
Nessa nova concepção de educação:
Professores e alunos, reunidos em equipes ou comunidades de aprendizagem, partilhando informações e saberes, pesquisando e aprendendo juntos: dialogando com outras realidades, dentro e fora da escola, este é o novo modelo educacional possibilitado pelas tecnologias digitais. Kenski( 2000 apud Kenski 2003. p. 66.)
Pensando nas relações humanas, do tutor eletrônico com o tutor de sala e com o aluno, a reflexão remete a Vigotsky ( 1978 ) e Paulo Freire(1996). Ambos, em seus estudos, apresentam semelhanças ao estabelecer a importância da influência do meio e das relações com o outro na construção da aprendizagem.
Para Freire ( 1996, p.57), a consciência de mundo e a consciência de si como ser inacabado, necessariamente inscrevem o ser consciente de sua inconclusão, num permanente movimento de busca. É a angústia de saber que não se sabe, que faz o sujeito buscar... Mais adiante, completa :... é na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente. Mulheres e homens se tornaram educáveis na medida em que se reconheceram inacabados. FREIRE (1996, p. 58)
Pensar em educação à Distância com a mediação do computador e toda a fantástica organização do sistema EAD é pensar uma educação sem distância, pois existem momentos síncronos, em que a turma de alunos encontra-se no pólo de apoio, há um professor presencial, que modernamente chama-se tutor de sala, há a tele-aula em tempo real, o chat onde os alunos podem interagir com o professor, enfim, a aula acontece, embora os alunos completem seu auto-estudo em casa. Mas nem sempre foi assim, pois a educação à distância já vem desde o século XIX, embora alguns autores afirmem que ela iniciou com a invenção da escrita, por Gutemberg no século XV.
BASTOS, CARDOSO e SABBATINI (2000) consideram que modernamente a origem da educação à distância está nos cursos por correspondências, iniciados no final do século XV. Assim, o correio foi a invenção tecnológica que propiciou este sistema, naquela época. Os cursos eram realizados totalmente à distância, os alunos recebiam materiais pelo correio. Até hoje ainda existe o Instituto Universal Brasileiro, que teve seu início em 1941, oferecendo diversos cursos profissionalizantes.
No início do século XX , os cursos com a utilização do rádio foram uma inovação importante, pois o rádio era um meio de comunicação de massa, que rapidamente foi evoluindo, com o uso da TV e do computador.
No Brasil, a EAD toma forma no ano de 1904, mas a partir de 1930 foi fortemente enfatizada, com o ensino profissionalizante. Havia muitos jovens que residiam em locais de difícil acesso para o ensino formal, visto que não havia escolas em todas as comunidades .
A EAD ficou conhecida no Brasil a partir dos projetos de ensino supletivo, pela TV, adquirindo popularmente o termo “educação pela televisão”.
A descontinuidade de todos os projetos de educação à distância sempre deram a esta modalidade uma característica de pouca adesão, o que fez com que demorasse para esta forma de educação ser aceita e regulamentada em todos os segmentos legais necessários nas implantações de cursos.
A primeira vez que a educação à distância foi citada na lei foi em 1996, Lei nº 9.394/96 ,cuja redação diz: “Caracteriza-se a educação à Distância como modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos.”
Analisando tudo o que há de legal para a educação à distância, percebe-se que há um movimento crescente de respeito e simpatia por esta modalidade de educação, tanto que há uma demanda em termos de capacitação de professores da educação básica nesta modalidade, através do portal do MEC, Plataforma Paulo Freire , uma ação conjunta do Ministério da Educação , Instituições Públicas de Educação Superior e Secretarias de Educação dos Estados e Municípios, direcionado a professores que estejam em exercício nas escolas públicas estaduais e municipais sem a formação exigida pela LDB, oferecendo cursos superiores públicos, gratuitos e de qualidade.
A Educação à Distância é um processo em permanente construção, onde a cada dia se aprimora o que já existe, além disso, é preciso permanentemente corrigir os erros que vão surgindo, visto que não há modelos a serem seguidos; quem faz a EAD está garimpando, experimentando, inovando, ousando, por isso é preciso monitoramento constante.
Ao percorrer a bibliografia sobre a história da EAD em diferentes países, nota-se que o papel da tutoria nestes modelos de educação, varia muito de Instituição para Instituição e também na linha do tempo, isto é, vai se aprimorando constantemente, conforme as necessidades que se apresentam no desenrolar do trabalho.
As grandes Instituições de Educação à distância surgiram em países como Espanha, Inglaterra e Alemanha, a partir de 1970. Nestes países também houve descrédito e preconceito , mas hoje já conquistaram maior respeito.
O tutor, como assessor de grupos de alunos, que cuidava de seus estudos, sob a coordenação do professor titular, vem aparecer no final do século XV, em Universidades Inglesas de Oxford e Cambridge.
No século XIX, o tutor passou a fazer parte da composição do quadro docente, devido a verificação da eficácia deste modelo de apoio a aprendizagem, o que influenciou muito a configuração da tutoria organizada pela primeira universidade a distância, a Open University, em 1969. Esta serviu de “exemplo” para a implantação das outras que surgiram depois dela, como a UNED da Espanha, em 1972, a Anadolu University da Turquia, em 1978, a University of South Africa, em 1973, a Indira Gandhi National Open University da Índia, em 1985, entre outras.
Nestes modelos citados, o tutor tinha o papel de verificar a compreensão do aluno nas disciplinas estudadas, esclarecendo dúvidas, acompanhando as atividades, sugerindo exercícios, leituras e trabalhos práticos, assessorando e animando-o durante todo o processo , além de realizar a avaliação formativa permanente para garantir os avanços do aluno no curso.
Algumas Instituições de Ensino diferenciam-se dos modelos, adequando às suas necessidades e pontos de vista sobre o que entendem por Educar. Observa-se que a tutoria de Téluq ( Téle-Université Du Québec) apresenta uma abordagem pedagógica no ato de aprender, disponibilizando ao aluno recursos que lhe permitam alcançar sucesso, desenvolvendo sua autonomia. Nestes modelos, o tutor assume o papel de acompanhar o estudante nos seus esforços para aprender. Segundo Deslise ET AL. (1985), o tutor neste modelo deve ter as características de facilitador, observador, conselheiro, psicólogo, especialista em avaliação formativa e administrador.
No Brasil, os modelos de tutoria também apresentam diferenças de uma Instituição para a outra, conforme a concepção de ensino e educação de seus dirigentes, mas para que a educação seja à distância, a mediação é uma necessidade, por isso o sistema de tutoria é fundamental.
Oliveira (2002) estuda os modelos de tutoria que estão sendo implementados nas Universidades públicas do Brasil e percebe que a maioria dos projetos mostra a preocupação em construir uma lista de funções do tutor, de forma linear, pois há a preocupação mais com a estrutura da tutoria do que com a concepção de tutoria.
Em todos os modelos de educação à distância ,no Brasil, nos deparamos com a palavra “autonomia” , onde repetidas vezes há o discurso de que o estudante que escolhe este modelo de educação deve desenvolver o hábito de gerir seu próprio estudo, organizando seu tempo de forma autônoma. Mas o discurso não contempla a realidade, pois há uma distância entre o que se espera do aluno e o que ele é capaz de realizar. A grande maioria dos estudantes brasileiros estudou em escola de educação presencial, tem interiorizado o seu modelo de aprender por que o professor ensina. Mudar este conceito internamente é demorado e exige esforço, e , segundo Maraschin ( 2000), apoiando-se em Maturana ( 1993) , sem o encontro, sem a possibilidade de convivência não há aprendizagem, pois esta ocorre não quando há mudanças de comportamento, mas quando há mudança estrutural da convivência. Ora, enquanto o estudante está fazendo a transição entre o que tem interiormente e o que se apresenta externamente, quem lhe dará o suporte necessário para tal? É aqui que o olhar atento do tutor fará toda a diferença...
Esta transição interna de “jeito” de aprender, no nosso entendimento, ocorre nos dois primeiros semestres do curso, daí o cuidado especial do tutor poderá contribuir para manter ou não o estudante no curso.
Os profissionais que atuam na EAD precisam ter um perfil independente, autônomo, flexível, muito mais que um professor do ensino presencial, para ser capaz de superar as barreiras físicas e adaptar-se a constantes mudanças no sistema. Pode-se perceber que nesta modalidade de ensino, nada é permanente, tudo está em constante mudança.
Percorrendo literatura sobre o tutor eletrônico, encontramos diversos olhares sobre o ofício de tutor como:...a responsabilidade de mediar todo o desenvolvimento do curso, respondendo dúvidas sobre o conteúdo, gerenciando a participação dos estudantes nos chats, estimulando-os a cumprir suas tarefas e avaliando a participação de cada um (Gonzales, 2005)
Este profissional, que além de ser professor, deve ser especialista na área em que atua, deve ter condições de facilitar a aprendizagem, orientar e dinamizar, fazendo a mediação pedagógica.
Ao pensar no profissional que atua como tutor eletrônico, voltamos a atenção para sua formação. É exigência das Instituições, que tenha no mínimo graduação e especialização na área em que irá atuar , mas será suficiente esta formação mínima para uma atuação eficiente e de qualidade? A capacitação inicial e continuada que as Instituições oferecem aos seus profissionais garante o desenvolvimento das habilidades necessárias para a qualidade do atendimento deste profissional? Não está na hora de se pensar em um curso de graduação ou tecnológico para formar tutores?
Estas reflexões ficam no ar, para se provocar a discussão e o repensar constante sobre a necessidade de valorizar este profissional , que é fundamental para o sucesso de programas e projetos em educação a distância.

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